{"id":79,"date":"2025-01-02T04:56:30","date_gmt":"2025-01-02T07:56:30","guid":{"rendered":"https:\/\/tecnicidades.org\/?p=79"},"modified":"2025-01-02T04:56:30","modified_gmt":"2025-01-02T07:56:30","slug":"a-cidade-anti-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tecnicidades.org\/?p=79","title":{"rendered":"A cidade anti-urbana"},"content":{"rendered":"\n<p>Nas frias p\u00e1ginas redigidas pelo tecnocrata, a regra \u00e9 clara: \u00e9 a cidade, basicamente, um agregado compacto de um n\u00famero consider\u00e1vel de pessoas. \u00c9, em suma, uma comunidade densa em que pessoas vivem consideravelmente mais pr\u00f3ximas umas das outras e dos servi\u00e7os. <\/p>\n\n\n\n<p>Tais caracter\u00edsticas j\u00e1 s\u00e3o, por si s\u00f3, combust\u00edvel para a forma\u00e7\u00e3o de agremia\u00e7\u00f5es  mui distintas de suas contrapartes campesinas. Ora, se no campo o tempo \u00e9 pautado pelas colheitas e perspectiva de trabalho sazonal, na cidade h\u00e1 constante demanda por pedreiros, ferreiros, marceneiros e afins, e seus amigos provavelmente morar\u00e3o a uma dist\u00e2ncia and\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>De s\u00fabito, a cerveja, a dan\u00e7a, a m\u00fasica se tornam companheiras di\u00e1rias. Tavernas operadas por an\u00f4nimos competem pela aten\u00e7\u00e3o dos passantes com letreiros chamativos. \u00c0s vezes, recorrem at\u00e9 a berros. \u00c9 na cidade que o com\u00e9rcio floresce. E n\u00e3o por acaso, locais de intenso com\u00e9rcio na Europa medieval tornaram-se posteriormente cidades que existem at\u00e9 hoje. <\/p>\n\n\n\n<p>A isto se d\u00e1 o nome de <em>vida urbana<\/em>. \u00abUrbana\u00bb, que vem do latim \u00aburbe\u00bb. Os romanos usavam o termo \u00abAbe Urbe Condita\u00bb para denotar os anos passados desde a forma\u00e7\u00e3o da cidade estado de Roma, da mesma forma como n\u00f3s contamos os anos desde o nascimento de Cristo. Esta cidade n\u00e3o \u00e9 qualquer cidade: \u00e9 a <em>p\u00f3lis<\/em>, como chamavam os gregos. <\/p>\n\n\n\n<p>Para todos os efeitos, a cidade <em>era<\/em> o estado. N\u00e3o existiam estados nacionais e imp\u00e9rios eram formados pela federa\u00e7\u00e3o de outras cidades estado anexadas a suas esferas de influ\u00eancia. Este poder pol\u00edtico emprestou \u00e0 cidade uma outra caracter\u00edstica: a de ser um centro c\u00edvico e administrativo. <\/p>\n\n\n\n<p>Cidades t\u00eam poder. Tanto como somat\u00f3ria de seus quocientes eleitorais, como da for\u00e7a da grana de todos os pagadores de imposto sob sua jurisdi\u00e7\u00e3o. \u00c9 na cidade que se trava mais intensamente a luta por espa\u00e7o. E \u00e9 nela que se pode se ver e ser visto. Ser urbano \u00e9 ser, sob este ponto de vista, ser habituado a este caos controlado, ladeado por todos os \u00e2ngulos pelos mais diversos aspectos da vida. <\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, nem todo habitante da cidade \u00e9 um inequ\u00edvoco \u00abcidad\u00e3o\u00bb. Alguns se ressentem. Tomam, pela necessidade, um terreno long\u00ednquo, o \u00fanico que lhes cabia nos bolsos, e ali vivem como se ainda habitassem suas ch\u00e1caras envoltas pelo v\u00e9u escuro da noite e de macieiras, laranjeiras, galinheiros, e por a\u00ed vai. Entrincheirados neste enclave h\u00edbrido da urbanidade com ruralidade, produzem uma realidade que funciona mal em ambos os casos. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9, enfim, a \u00aburbanidade anti-urbana\u00bb, da qual gostaria de tratar. A urbanidade contrariante do ex-campesino que se viu obrigado a largar a foice, para tomar o martelo. E, ainda por cima, se viu obrigado a faz\u00ea-lo enquanto mora muito longe da ind\u00fastria que o emprega, gastando valioso tempo de vida em um deslocamento n\u00e3o remunerado pela companhia. <\/p>\n\n\n\n<p>Como pode um pacato ser humano interiorano se ver na figura de um \u00abcidad\u00e3o\u00bb se, desde sempre, \u00abcidade\u00bb era como se chamava o distante centro, onde tudo, de fato, era como uma cidade. Redes de comunica\u00e7\u00e3o e energia consolidadas, com\u00e9rcios, restaurantes, escrit\u00f3rios. Quem ali vivia e trabalhava, talvez pudesse colecionar privil\u00e9gios suficientes para se portar como orgulhoso cidad\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Os outros, presos na inexpugn\u00e1vel rotina casa->ind\u00fastria, inevitavelmente se viam exclu\u00eddos deste seleto clube. E, com isto, as \u00e1reas suburbanas foram tratando de criar suas pr\u00f3pria solu\u00e7\u00f5es, de onde nasceram os pequenos centros comerciais, como, por exemplo, a Rua Zilda, na Casa Verde, a antiqu\u00edssima Freguesia do \u00d3 ou mesmo Santo Amaro, para citar alguns exemplos em S\u00e3o Paulo. <\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, estes enclaves produziram uma urbanidade perif\u00e9rica que, se supria estas comunidades desoladas, resultava num tecido urbano fragmentado, integrado por algumas rotas saturadas e assoladas pelo intenso deslocamento pendular. <\/p>\n\n\n\n<p>E aqui preciso pontuar que S\u00e3o Paulo \u00e9 o ponto focal desta cr\u00edtica. Talvez n\u00e3o seja a \u00fanica cidade anti-urbana. \u00c9 poss\u00edvel que Los Angeles, com toda a sua agressividade e comunidades espremidas entre as famigeradas \u00abfreeways\u00bb, as auto-bahns urbanas do centro do capitalismo, possa ser t\u00e3o anti-urbana quanto n\u00f3s. E, ademais, \u00e9 a n\u00f3s mais f\u00e1cil falar de nossa casa do que a de outrem. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta urbanidade torta, forjada \u00e0 sombra do capitalismo mal regulamentado durante os anos de forma\u00e7\u00e3o dessa terra, nos deixa como heran\u00e7a um tecido urbano esgar\u00e7ado em que, por onde quer que se olhe, h\u00e1 erros. H\u00e1 obras feitas de qualquer jeito, h\u00e1 fios pendurados, h\u00e1 reparos executados da forma mais vagabunda e barata. Tudo isto fruto de uma comunidade que se conforma com a calamidade de tanto que esta fez parte de sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p>Sou ambicioso, contudo. E de um idiota otimismo. Quero pensar que este pequeno, obscuro e provavelmente esquec\u00edvel blogue contribua o seu 0,1% com a mudan\u00e7a desta cultura perniciosa, que corr\u00f3i nossa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o e nos impede de construir uma cidade integrada, com servi\u00e7os \u00e0 porta e dist\u00e2ncias caminh\u00e1veis, e que, a cada vez mais, nos tem entregue ao mundos dos condom\u00ednios-clube acastelados, abastecidos por cond\u00f4minos motorizados e mercadinhos internos, acess\u00edveis apenas aos que ali moram. <\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser que doa no come\u00e7o. Mas \u00e9 para ontem uma urbanidade receptiva, que demonstre aos mais desvalidos que a cidade n\u00e3o \u00e9 propriedade de uns poucos afortunados do centro, mas tamb\u00e9m deles, sem os quais as complexas engrenagens metropolitanas n\u00e3o girariam. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas frias p\u00e1ginas redigidas pelo tecnocrata, a regra \u00e9 clara: \u00e9 a cidade, basicamente, um agregado compacto de um n\u00famero consider\u00e1vel de pessoas. \u00c9, em suma, uma comunidade densa em que pessoas vivem consideravelmente mais pr\u00f3ximas umas das outras e dos servi\u00e7os. 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